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Do lacrau e da sua picada
de José Cipriano Catarino
28-05-2007 | 257 páginas | Romance
Digital: 4,5 €
ISBN: 978-989-8019-03-5

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Palavras chave: romance, vida, amor, tempo, felicidade
Recensão

Síntese da publicação

Narrativa de ritmo rápido, em que personagens do nosso tempo se vêem confrontadas com velhas questões — vida, amor, tempo, felicidade —, enquadradas numa perspecti-va tendencialmente optimista. A história procura, aqui e ali, surpreender o leitor e é con-tada numa linguagem que busca a clareza e o rigor semântico, rejeitando lugares-comuns e pedantismos.

Uma história do nosso tempo

Esta é a história de uma mulher jovem, atraente, gasta em paixões irreflectidamente arrebatadoras, que encontrou o afecto e a estabilidade emocional junto de um homem mediano, numa relação em que o amor se edifica a partir do respeito e os gestos de ter-nura se sobrepõem a uma sôfrega necessidade de união corporal.

Ao retratar a insensibilidade que paulatinamente dissolve os ténues vínculos de relações erigidas com base em juvenis ilusões, génese de crescentes episódios de violência doméstica, o narrador vai tecendo agudas considerações sobre as nefastas consequências do descuramento da educação: laços afectivos que se desmoronam perante a improfi-ciência comunicativa e o desabamento da tradicional estrutura familiar que perpetuava os ancestrais valores morais…

Antigamente, no tempo dos seus avós, há muito falecidos, talvez uma mulher pudesse envelhecer sem angústia ou, pelo menos, com resignação. Mas agora, com a juventude por toda a parte numa sociedade cada vez mais envelhecida... É o leite que é juventude, os carros que são juventude, a moda que é juventude, qualquer dia até os asilos são juventude.

Similar à picada do lacrau que tanto pode matar como curar, estas personagens vivem arriscadamente entre o amor e a morte, a paixão e o ódio.


Personagens da obra

A protagonista, “ uma mulher vistosa, demasiado vistosa mesmo”, vê-se confrontada, em circunstâncias e local inesperados, com a transitoriedade e a fragilidade da vida:

“A ideia da velhice aterra-a, muito mais que a da morte, e de há uns meses para cá parece que tudo evoca essa assombração. Pensa: até quando pode afogar-se em farras ou sexo ou álcool sem que uma manhã, talvez já amanhã, ao olhar-se ao espelho, se não lembre do que foi e vendo-se naquilo que é, sem mais espe-rança de retrocesso, não sinta que o pior está para vir, vendo o seu amado cor-po degradar-se a pouco e pouco, murchando, enrugando, os seus orgulhos, dianteiros e traseiros, inclinando-se cada vez mais para o chão por força da gravidade, para o chão onde tudo acabará, não sem antes conhecer a solidão e a dor?”

É na Consoada, quando a depressão está prestes a atingir o auge, que recebe a visita de um velho conhecido, recentemente abandonado pela mulher. Nesse encontro de pessoas vividas e desiludidas, ela pede-o em casamento:

“Num breve instante, tão breve que a Lúcia não se pôde dele aperceber, o cére-bro do António avaliou a proposta — ele, que naquele momento ansiava como um adolescente por um corpo de mulher e uma cama, sem jamais pensar em casamento. (…) Por outro lado, a possibilidade de ter como sua uma mulher como a Lúcia, uma noite, um mês, anos, se a situação se aguentasse...

Novamente os testículos pensaram por si e como um perdigueiro que inespera-damente bebe ventos de caça e segue a futura presa sem que obstáculo algum o detenha — correntezas de água gélida, muros altos, taludes ou silvados — até a abocar e depor aos pés do dono, o António filou a oportunidade que inespera-damente lhe surgia, sem se importar com o preço incluído.”

Porém, ela terá ainda de vencer a resistência do filho adolescente e, sobretudo, o peso do passado, que ambos revisitam na “fresca e formosa Leiria”, onde o António recorda um curandeiro de outros tempos:

“(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fasci-nado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recu-sa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que tam-bém tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)”

Como então, “uma picada mata, uma picada cura. Depende da escolha”…

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José Cipriano Catarino

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